domingo, 23 de março de 2008

3 - ACUPUNTURA E DEPRESSÃO

A palavra “acupuntura” vem do Latim e se refere simplesmente ao ato de “penetrar com um instrumento pontiagudo”. Tal técnica originou-se na China, no período pré-histórico e vem sendo usada por mais de dois mil anos na China e no Japão (FILSHIE; WHITE, 2002, p. 3). A referência literária mais antiga está no livro de medicina interna do Imperador Amarelo, datada do segundo ou terceiro século antes de Cristo. A acupuntura chegou ao Japão no século VI da era Cristã e foi introduzida na Europa por Rhijine (1683), que havia aprendido no Japão essa arte terapêutica. Como terapia foi se difundindo muito lentamente na Europa. As primeiras publicações sobre acupuntura, européias e americanas, só apareceram no início do século XIX. Apesar de seu uso já mais difundido na metade do século XX, foi só na década de 70 que a atenção pública se voltou para essa terapia e veio a ser amplamente exercida. Filmes mostrando procedimentos cirúrgicos sob anestesia propiciada pela acupuntura, vindos da China, logo após a visita do presidente Nixon ao país em 1972, incitaram a imaginação pública. Foi então, nessa época, que se iniciaram as mais amplas pesquisas sobre a acupuntura e seus diversos efeitos, principalmente no que diz respeito ao controle da dor.

Hoje em dia, devido a esta ampla expansão da acupuntura para o Ocidente e devido a uma cultura atual de ciência baseada em evidências pode-se colocar a acupuntura dividida em dois grandes pilares: acupuntura segundo a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) e a Acupuntura Científica (AC). A MTC exerce a acupuntura conforme os ensinamentos de antigos mestres, que passaram seus conhecimentos ao longo de milhares de anos, sendo suas teorias baseadas num equilíbrio energético regido pelo Yin e pelo Yang (forças opostas com a finalidade de se equilibrarem entre si). A inserção de agulhas pelo corpo teria a finalidade de ajudar na restauração da energia vital, que estaria desbalanceada no caso de uma doença. Sendo assim, os melhores pontos deveriam ser selecionados para a restauração de uma homeostase individual – pontos que teriam uma indicação variável conforme o estado de desequilíbrio. Os pontos de acupuntura agrupados entre si, formariam segundo a MTC, meridianos (trajetos imaginários) ao longo do corpo, responsáveis por conduzirem nossa energia vital.

Já a AC baseia-se em princípios neurofisiológicos, anatômicos e muitas vezes exclui as teorias tradicionais chinesas. Para estes adeptos a aplicação das agulhas gera componentes neuroquímicos, psicológicos e hormonais, responsáveis pelo controle sintomatológico ou cura de algumas doenças. Esta corrente diversas vezes tenta traçar um elo entre a MTC e as informações disponíveis na medicina ocidental como, por exemplo, tentando correlacionar os meridianos com os trajetos nervosos ou com o trajeto de vasos da anatomia humana; muitas vezes questiona a real existência de uma energia percorrendo os meridiano; tenta traçar protocolos de tratamento, baseados em evidências e não por meio de diagnósticos firmados pela MTC. Porém, são inúmeros os estudos que acabam correlacionando a MTC e a AC, por isso esse capítulo irá se ater numa mescla destas duas correntes.

É interessante pontuar, também, que a terminologia utilizada pela MTC difere totalmente dos termos usados pela medicina ocidental. Por exemplo: “Pulmão” na MTC está relacionado com doenças de pele; “Rim” não diz respeito ao trato urinário e sim ao sistema genital; “Baço” regula as funções digestórias. Existe até um órgão “Triplo Aquecedor”, que não existe na anatomia moderna (LIAO, 1973, NEEDHAM, 1980 apud FILSHIE, 2002, p. 13). A justificativa para esta grande diferença reside no fato da MTC se basear em antigos manuscritos que datam de tempos cujas constatações de funcionamento do corpo, muitas vezes, eram feitas por intuição, e a anatomia interna humana norteava-se primordialmente pela palpação e observação.


Em casos de eletroacupuntura a corrente elétrica que passa pelas agulhas é uma corrente não contínua que pode ser relativamente lenta (2 – 10 Hz) ou rápida (80 – 150Hz) e a associação de freqüências baixas e altas tende a ter resultados mais favoráveis do que a utilização de somente uma das duas (ULETT; HAN; 1998, p. 129). A justificativa para isso parece ser a liberação de mais de um tipo de neuropeptídeo (MA, 2003, p. 42) e isso pode ser vantajoso, também, nos casos de depressão.

Para seleção dos pontos, e mesmo para localizar qualquer acuponto é importante lembrar que exames quantitativos das propriedades elétricas da pele fornecem a demonstração mais objetiva da validade científica dos pontos de acupuntura (BERGSMANN, 1973; REICHMANIS, 1975; BECKER et al., 1976; OLESON, 1983 apud STUX; HAMMERSCLA, 2005, p. 113). Nos anos 70, Matsumoto mostrou que 80% dos pontos de acupuntura podiam ser detectados como pontos de baixa resistência. Descobriu-se que a resistência elétrica dos pontos de acupuntura ia de 100 a 900 kOhm, ao passo que a resistência elétrica dos não-pontos de acupuntura ia de 1100 a 11.700 kOhm (STUX; HAMMERSCLA, 2005, p. 114).

No Departamento de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), por exemplo, o método utilizado para detectar os pontos de acupuntura com mais precisão é o Ryodoraku (aparelho utilizado para mapear a impedância ou resistência elétrica da pele). Integrantes do Departamento de Dor da FMUSP colocam que segundo Nakatani os pontos detectados pelo Ryodoraku indicam a existência de um processo patológico, resultado da liberação de substâncias algogênicas nas terminações nervosas do tegumento pesquisado (ANDRADE FILHO, 2005). Essas substâncias algogênicas promoveriam uma despolarização da membrana axonal e conseqüentemente reduziriam a resistência elétrica tegumentar (ANDRADE FILHO, 2005).

Como demonstrado no estudo de Röschke (RÖSCHKE, 2000), a acupuntura pode ser um recurso que utilizado de forma associada à tratamentos padrões pode trazer benefícios terapêuticos adicionais, potencializando, por exemplo, o efeito dos antidepressivos.

Cabe lembrar que trabalhar em conjunto com um psiquiatra pode ser uma alternativa bem interessante e em alguns casos primordial. Com isso pode-se discutir a eleição criteriosa dos pacientes que eventualmente se beneficiarão somente com a acupuntura, verificar as possibilidades de utilizar-se antidepressivos mais acupuntura, averiguar possíveis reduções em dosagens medicamentosas (em função da associação com a acupuntura) e deixar a cargo do psiquiatra os casos que possivelmente não se beneficiarão com o uso da acupuntura.

Apesar dos poucos estudos bem elaborados, controlados e com casuísticas importantes a acupuntura parece ser uma técnica promissora no tratamento da depressão. E para maiores conclusões e para claras orientações de tratamento mais estudos se fazem necessários.

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